Oi leitoreeeesssss! Tudo bem?
Hoje eu li uma matéria sobre um projeto que poderá ser aprovado no Brasil, e que se chama "Mutirão da Carona". Achei o nome até que engraçado, sei lá, "mutirão"... às vezes até "viajei na maionese", mas quando se trata de Brasil, não duvido de mais nada que seja hilário. Ué, mas gosto do Brasil? Claro que sim, sou brasileira, amo meu país, e sinto muuuuuita falta dele desde que o deixei, mas o fato de ama-lo não me impede de ter a ciência dos defeitos que existem por lá (ou por aí, se você é meu leitor no Brasil).
Eu sinto falta da minha família no Brasil. Das padarias. Da voz ativa de brasileira. Das praias. Do mar. Das ilhas. Mas me lembro sempre de um dos motivos cruciais que me impedem de sentir tanta falta assim do Brasil: o trânsito. Eu fico pensando que desde que comecei a trabalhar e/ou fazer faculdade, eu ODIAVA a minha cidade.
Nasci na cidade de São Paulo. Coloquem a mente para trabalhar... imaginem só 4,1 milhões de pessoas em 1.525 Km² de terra! Ok? agora pensem que da minha casa para a faculdade é necessário percorrer um trajeto que leva "APENAS" 2 horas. Da minha faculdade até meu serviço, mais 1h30min. E do serviço para casa, 1 hora.
Eu morava na Zona Norte de São Paulo, e não tenho o que reclamar do meu bairro porque sempre tive ótimos vizinhos e graças ao Senhor (e três pastores alemães/1 Rotweller na casa) nós nunca fomos assaltados. Mas o bairro era muito longe da minha faculdade na Zona Oeste e de todas as grandes empresas nas quais eu trabalhei, pois todas ficavam no extremo oposto: Zona Sul.
Todos os dias eu fazia minhas viagens... como daqui de Los Angeles a San Diego, na Califórnia.
A princípio eu não tinha carro E nunca tinha tinha carona. Pegava o ônibus Jaçanã às 5h30min da manhã e descia na porta da USP as 7h30. Andava pelo prédio da faculdade de Historia e chegava em 10 min na porta da FFLCH a tempo da aula. Eu lembro que muitas vezes estava um frio ferrado quando eu saía de casa, aquela garoa de São Paulo e, por incrível que pareça, o ônibus já tava LOTADO. Eu parecia uma coruja, já dormia de pé e nem dava bola, acostumei com a desgraça.
Primeiro ano de faculdade, ano básico de Letras... tudo novo, já não estava nem mais tão feliz de ter passado no vestibular. Por quê? Havia dias em que eu tinha por dia UMA aula de 2h30min e para minha felicidade o professor faltava. "Ah, mas é faculdade de Estado... o professor falta mesmo". Era ISSO o que eu ouvia dos alunos "intelectuais" da USP. Tinha gente inteligente sim, mas uns que decoravam a apostila do vestibular, tinham a sorte de ter passado depois de 10 anos tentando, so para conseguir um estágio. Daí depois da aula, íam todos assistir o filme do Godard e fingiam não sair do cinema com dor de cabeça. Já assistiram um filme do Godard, leitores? Todo mundo sai com uma cara de funeral do cinema. Não gosto do Godard. Ele é inteligente sim, mas usa a inteligência para perturbar a cabeça dos seres humanos normais como eu. Dos filmes dele eu gosto de alguns, mas também só depois de tê-los estudado, analisado na faculdade e entendido a genialidade do cara. Mas todos saem da sala de cinema com cara de que saiu de uma guerra. Todos cansados de tanto tentar raciocinar no filme.
Cansada estava eu de ir para a faculdade e não ter aula. Me dava conta que tinha perdido horas de sono, meu precisoso tempo dentro do ônibus lotado. Já soltava um "professor filho da ..." depois de ter esperado por ele olhando para o relógio. O professor não chegava, então eu me enfiava na biblioteca.
Passei muito tempo da minha faculdade na biblioteca, onde eu me conformava com os absenteísmos dos professores e greves que aconteciam durante o ano letivo. Só que depois vem a fase da revolta, a gente se junta com um grupo e prende o reitor dentro da faculdade, se rebela contra o Estado, etc. Mas no primeiro ano de faculdade você é sempre bonzinho. Fui boazinha até ali. Tive também a minha fase de maloqueira.
Saía da USP na Zona Oeste e tinha que pegar aquele bendito ônibus para ir trabalhar lá na Zona Sul, no bairro do Jabaquara.
Quando comecei a ler a matéria sobre o projeto de dar carona no Brasil e a situação do trânsito por lá, eu pesquisei como estavam as condições dos bairros que fizeram parte da minha vida. Descobri que a população de Santana e Jabaquara diminuiu, por isso a população da CIDADE DE SÃO PAULO diminuiu bastante (de 4,3 para 4,1 milhões). Vejam só a Malu fazendo diferença lá UAHUAHAUAHAUAH. Enfim, mesmo com essa diminuição, já podemos imaginar o trânsito caótico que está hoje porque é simplesmente "gente demais" num lugar só. Já era ruim, hoje sei que nem "horários de pico" existem mais, pois é transito pesado o tempo todo.
Esse trânsito era de 1h30min da minha faculdade até o aeroporto, quando trabalhei na TAM, 1 hora quando trabalhei no Banco Real e 1h30min quando era funcionária da Bristol-Meyers. Sempre trabalhei longe de casa, as empresas ficavam todas bem longe da Zona Norte. Da faculdade para a TAM tinha um ônibus para pegar e mais uma KOMBI kkkkk que me levava até a porta do serviço. A gente ía de turma na Kombi para nao ser assaltado na porta do serviço, pode?
Assalto... daí mais um motivo que deixei a cidade de São Paulo... A VIOLÊNCIA. Fui assaltada "só" 7 vezes no farol, na última eu já estava até negociando com o bandido o que daria para ele. Quando cheguei em Los Angeles ainda estava paranóica, tinha medo de andar nas ruas de Hollywood e ser assaltada, seqüestrada, estuprada, morta, etc... essas "nóias" todas que temos nos países de Terceiro Mundo. Demorou um pouco para desconectar do medo de viver numa cidade como São Paulo, na qual a gente presencia, tiroteio, assalto no ônibus, tarado no metrô, policial que compra droga, etc. Triste. Muito triste. A primeira vontade é de mudar o mundo, depois você tenta mudar "só" a sua cidade e conscientizar as pessoas. Passeata! Cartaz! Protesto na Universidade! Depois você acredita num Presidente safado analfabeto. "Ah, ele já foi pobre, vai entender e fazer algo por mim". Um belo dia você pára de estressar. E muda de país. Troca seu sangue pelo sangue ao qual você não pertence, mas se adapta ao país estrangeiro e vive bem. Trabalha de empregado num país de Primeiro Mundo e tem a qualidade de vida de um rico do Brasil.
Los Angeles, onde moro atualmente, tem muito trânsito. Outro dia eu vi cinco pistas lotadas de carro na "Freeway" (é o mesmo que uma Marginal Tietê em São Paulo). Porém, meu carro andava e permanecia entre 4a e 5a marchas. Em São Paulo? Primeira marcha. Quando comecei a ir para a faculdade de carro tive várias vantagens kkkk almoçava no carro quando saía da USP e ía para o aeroporto. Marmita no carro, com garfo, faca e tudo o mais porque dava para usar, o trânsito parado... "vou ganhar tempo e almoçar/jantar no carro". Maquiagem? Eu fazia no carro, sempre preocupada porque o trânsito poderia estar tão ruim que eu talvez atrasasse no serviço. Para evitar... "por que fazer maquiagem em casa, vou ganhar tempo". Unhas? Pintava no carro. Cheguei a fazer resenhas da faculdade no carro!!! Lia os livros no carro. Escrevia no carro! Muita coisa no carro! O estômago com gastrite pela falta de educação das pessoas no trânsito, o nervoso de ter de chegar no horário, ou do alagamento que estava lá na frente... Ou então um idiota qualquer que acabou de chegar no cruzamento desrespeita centenas passando o farol vermelho na frente de todo mundo...
Em São Paulo você não aprende a dirigir, você sobrevive. Aprende a colar no carro da frente, buzinar, ignorar calçadas e subir nelas, xingar, etc... Você nasce bom e o meio o corrompe? É bem por aí...
Ai, FORA PASSADO! Quando penso nessas coisas eu sei que não posso mais morar naquela cidade!
Esse projeto "Mutirão da Carona" para as cidades parece lindo. Todo mundo sorrindo dando carona para o vizinho. Aquele que vai para o serviço, e mora na mesma rua que você, e as vezes até trabalha com você, mas NUNCA ofereceu uma carona. Daí na propaganda você vê a "solidariedade" no rosto das pessoas, felizes dando carona para diminuir a quantidade de carros na rua. Elas se comunicariam via internet para darem ou receberem carona, assim poderiam passar pela linha de canto, conhecida aqui nos Estados Unidos como "Carpool". A parte hilária é que o projeto menciona essa linha de canto fosse novidade no Brasil. Em São Paulo sempre existiu e nunca funcionou. A maioria que estava sozinha no carro entrava no "Carpool" e ferrava todo mundo, dava uma caixinha para o guarda de transito e ficava por isso mesmo.
Mais um motivo que me fez sair do Brasil... A CORRUPÇÃO. Vira tanta palhaçada, não vou nem entrar no mérito. O país só vai sumir com a corrupção quando sumir do mapa, porque "a corrupção no Brasil é tratada como um filho caçula. Foi a primeira a aprontar e a última a ser penalizada". Essa frase é minha, by Malu.
Dar carona ajuda sim, mas segundo a Fonte http://br.noticias.yahoo.com/indepth/transito.html, 64% dos automóveis no Brasil se locomovem com UMA pessoa dentro, apesar das propagandas, apelos, projetos, etc. Isso porque o povo brasileiro tem a falsa fama de ser solidário. Quando estamos nos Estados Unidos é mais claro ainda que brasileiro tenta só ferrar um com o outro e ainda dá aquela sorriso para você e esfaquiando por detrás. É um povo alegre sim, e não podemos generalizar que são todos ruins, mas há muita hipocrisia na sociedade. Dificilmente você verá outros povos metendo bedelho ou fazendo fofoca do próprio amigo. Nos Estados Unidos é muito dificil de se fazer um amigo, mas quando um americano confia em você, ele será seu amigo de verdade. Aqui a gente acaba sempre procurando brasileiros, e é algo que nos faz sentir mais em casa porque, assim como eu já mencionei no início, não saí do país porque odeio meu país, mas porque as condições de qualidade de vida e a mediocridade das pessoas me "explusaram" de lá. Aqui ainda lido com a mediocridade de algumas pessoas, mas estando num país que não é seu, alguns desses brasileiros voltam ao seu país de origem depois de meses ou poucos anos, então o estresse é bem menor kkk
Leitores, como vocês podem ver, eu me utilizei da famosa frase "os incomodados que se retirem". Depois de muito tempo tentando, eu cansei de ser a minoria num país gigante como o Brasil, que se conforma e nunca tentou NADA para fazer alguma diferença. Porque se cada cidadão que tem condiçoes de fazer algo realmente o fizesse, quer seja dar carona como eu dei, de ser voluntário numa escola, ou de ser ativo em uma ONG, o país mudaria. É BEM MELHOR DO QUE COLOCAR TODA A CULPA NO GOVERNO!!!! Eu fico muito brava quando as pessoas falam "ah, mas o governo é assim". Se seu patrão é desonesto, você será também? Dá-me um tempo!!!! Mas tudo tem o jeitinho brasileiro... não precisa mudar. Tudo acaba em churrasco, samba e futebol, com aplausos da torcida organizada assassina nos estádios de futebol que aparecem no Fantástico depois de xingar o Galvão Bueno e aparecer no meio da matéria do "Domingão do Faustão". Nos intervalos assistam às propagandas do projeto "Mutirão da Carona". Mas assistam e façam, vocês que estão aí no Brasil. É triste ver na primeira página do jornal "The New York Times" uma foto do trânsito pior do mundo, que foi considerado o da cidade de São Paulo.
Já dependeu de carona no Brasil? Eu já. Já deu carona no Brasil? Eu sempre. Quer me dar uma carona de volta ao Brasil? Não obrigada, por enquanto eu estou muito bem aqui. Nunca falo que desta água não beberei, mas já bebi muuuito das praias poluídas de São Paulo.
Reflita aí.
Com amor,
Malu xxx
